O Maior Desafio da IA no Setor Público Não É a Tecnologia. São as Pessoas.
O Maior Desafio da IA no Setor Público Não É a Tecnologia. São as Pessoas.
Quando se fala em Inteligência Artificial no governo, a maioria das discussões gira em torno de softwares, algoritmos, infraestrutura tecnológica e investimentos em inovação.
Entretanto, governos de diversos países estão chegando a uma conclusão diferente: o maior desafio para adoção da IA não está na tecnologia. Está nas pessoas.
Essa percepção vem ganhando força à medida que experiências realizadas em países como Austrália, Reino Unido, Estados Unidos, Singapura e Colômbia demonstram que a principal barreira para transformação digital não é a falta de ferramentas, mas a dificuldade das organizações em desenvolver uma força de trabalho preparada para utilizar a inteligência artificial de forma segura, responsável e eficiente.
A IA deixou de ser uma aposta para se tornar uma realidade
Durante muitos anos a inteligência artificial foi vista como uma tecnologia promissora para o futuro.
Hoje essa discussão mudou.
Governos ao redor do mundo já estão incorporando IA em processos administrativos, análise de dados, atendimento ao cidadão, elaboração de documentos, gestão do conhecimento e apoio à tomada de decisão.
No Reino Unido, por exemplo, foi lançado o projeto Humphrey, um conjunto de ferramentas de IA destinado a modernizar operações internas da administração pública.
Na Colômbia, a Política Nacional de Inteligência Artificial prevê mais de uma centena de ações voltadas à aceleração da adoção da tecnologia em diferentes setores do Estado.
No Brasil, iniciativas ligadas ao portal Gov.br já utilizam inteligência artificial para personalizar serviços e facilitar o acesso dos cidadãos às informações governamentais.
O debate deixou de ser "se" os governos utilizarão IA.
A discussão atual é "como" essa transformação será conduzida.
O conceito de força de trabalho preparada para IA
Um dos conceitos mais relevantes que vem surgindo na gestão pública internacional é o de AI-Ready Workforce, ou força de trabalho preparada para IA.
A ideia é simples.
Uma organização pode adquirir os melhores sistemas de inteligência artificial disponíveis no mercado. Porém, sem pessoas capacitadas, confiantes e preparadas para utilizar essas ferramentas, os resultados dificilmente aparecerão.
Uma força de trabalho preparada para IA é composta por profissionais que possuem:
abertura para inovação;
conhecimento básico sobre IA;
capacidade crítica para avaliar resultados;
compreensão dos riscos envolvidos;
diretrizes claras para utilização da tecnologia;
ambiente organizacional favorável à experimentação.
Sob essa perspectiva, a transformação digital passa a ser menos um problema tecnológico e mais um desafio de desenvolvimento organizacional.
O estudo que chamou a atenção dos governos
Talvez um dos exemplos mais relevantes tenha ocorrido na Austrália.
Em 2024, o governo australiano realizou um dos maiores testes governamentais envolvendo inteligência artificial generativa.
Mais de 7.600 servidores públicos distribuídos em mais de 60 órgãos participaram de um projeto piloto utilizando o Microsoft Copilot.
Os resultados foram expressivos.
Os participantes utilizaram a ferramenta para:
elaboração de documentos;
análise de dados;
produção de apresentações;
desenvolvimento de código;
organização de informações;
síntese de reuniões.
Diversos usuários relataram economia de até uma hora em tarefas administrativas específicas.
Mas o dado mais interessante veio depois.
Quase metade dos participantes declarou utilizar o tempo economizado para atividades de maior valor agregado, como:
planejamento estratégico;
capacitação profissional;
colaboração entre equipes;
desenvolvimento de competências;
relacionamento com partes interessadas.
A experiência demonstrou que a IA não reduziu a importância dos servidores. Ela ampliou sua capacidade de atuação.
O problema não foi tecnológico
Apesar dos resultados positivos, a pesquisa identificou obstáculos inesperados.
As principais barreiras encontradas não estavam relacionadas ao software.
Entre elas estavam:
receio de utilizar IA;
preocupações éticas;
falta de treinamento;
ausência de orientações claras;
estigma associado ao uso da tecnologia.
Em outras palavras, os desafios eram humanos e organizacionais.
Essa constatação reforça uma frase frequentemente citada por especialistas em transformação digital:
A adoção da IA no governo é mais uma questão de mudança organizacional do que de tecnologia.
Essa afirmação ajuda a explicar por que algumas organizações avançam rapidamente enquanto outras permanecem estagnadas, mesmo possuindo acesso às mesmas ferramentas.
O servidor público continuará sendo essencial
A popularização da IA trouxe consigo previsões sobre substituição de trabalhadores.
No setor público, entretanto, a realidade tende a ser diferente.
Embora a tecnologia seja extremamente eficiente para automatizar tarefas repetitivas, ela continua dependente da supervisão humana.
Questões envolvendo:
ética;
responsabilidade institucional;
interpretação normativa;
negociação;
liderança;
tomada de decisão;
relacionamento com cidadãos;
continuam exigindo capacidades humanas.
A inteligência artificial pode produzir respostas.
O servidor público continua responsável por interpretar contextos, avaliar consequências e tomar decisões que afetam a sociedade.
O futuro pertence aos governos que aprenderem primeiro
Existe uma frase utilizada por um especialista em IA de uma agência nacional de investimentos da Índia que resume bem o cenário atual:
Não utilizar IA pode ser comparado a entrar em uma disputa moderna utilizando ferramentas do passado.
A afirmação pode parecer exagerada, mas ilustra uma realidade crescente.
Enquanto governos ao redor do mundo avançam em estratégias nacionais de inteligência artificial, capacitação de servidores e modernização administrativa, instituições que permanecerem alheias a essa transformação podem enfrentar dificuldades para acompanhar a velocidade das mudanças.
A questão central já não é mais tecnológica.
A verdadeira pergunta é: as pessoas estão preparadas para trabalhar ao lado da inteligência artificial?
Os governos que conseguirem responder essa pergunta primeiro provavelmente estarão mais preparados para entregar serviços públicos mais eficientes, mais inteligentes e mais centrados nas necessidades dos cidadãos.