O Maior Desafio da IA no Setor Público Não É a Tecnologia. São as Pessoas.

O Maior Desafio da IA no Setor Público Não É a Tecnologia. São as Pessoas.
Criado: 01/06/2026 Atualizado: 01/06/2026

O futuro do serviço público não depende dos algoritmos, mas de quem os utiliza.


O Maior Desafio da IA no Setor Público Não É a Tecnologia. São as Pessoas.

Quando se fala em Inteligência Artificial no governo, a maioria das discussões gira em torno de softwares, algoritmos, infraestrutura tecnológica e investimentos em inovação.

Entretanto, governos de diversos países estão chegando a uma conclusão diferente: o maior desafio para adoção da IA não está na tecnologia. Está nas pessoas.

Essa percepção vem ganhando força à medida que experiências realizadas em países como Austrália, Reino Unido, Estados Unidos, Singapura e Colômbia demonstram que a principal barreira para transformação digital não é a falta de ferramentas, mas a dificuldade das organizações em desenvolver uma força de trabalho preparada para utilizar a inteligência artificial de forma segura, responsável e eficiente.

A IA deixou de ser uma aposta para se tornar uma realidade

Durante muitos anos a inteligência artificial foi vista como uma tecnologia promissora para o futuro.

Hoje essa discussão mudou.

Governos ao redor do mundo já estão incorporando IA em processos administrativos, análise de dados, atendimento ao cidadão, elaboração de documentos, gestão do conhecimento e apoio à tomada de decisão.

No Reino Unido, por exemplo, foi lançado o projeto Humphrey, um conjunto de ferramentas de IA destinado a modernizar operações internas da administração pública.

Na Colômbia, a Política Nacional de Inteligência Artificial prevê mais de uma centena de ações voltadas à aceleração da adoção da tecnologia em diferentes setores do Estado.

No Brasil, iniciativas ligadas ao portal Gov.br já utilizam inteligência artificial para personalizar serviços e facilitar o acesso dos cidadãos às informações governamentais.

O debate deixou de ser "se" os governos utilizarão IA.

A discussão atual é "como" essa transformação será conduzida.

O conceito de força de trabalho preparada para IA

Um dos conceitos mais relevantes que vem surgindo na gestão pública internacional é o de AI-Ready Workforce, ou força de trabalho preparada para IA.

A ideia é simples.

Uma organização pode adquirir os melhores sistemas de inteligência artificial disponíveis no mercado. Porém, sem pessoas capacitadas, confiantes e preparadas para utilizar essas ferramentas, os resultados dificilmente aparecerão.

Uma força de trabalho preparada para IA é composta por profissionais que possuem:

  • abertura para inovação;

  • conhecimento básico sobre IA;

  • capacidade crítica para avaliar resultados;

  • compreensão dos riscos envolvidos;

  • diretrizes claras para utilização da tecnologia;

  • ambiente organizacional favorável à experimentação.

Sob essa perspectiva, a transformação digital passa a ser menos um problema tecnológico e mais um desafio de desenvolvimento organizacional.

O estudo que chamou a atenção dos governos

Talvez um dos exemplos mais relevantes tenha ocorrido na Austrália.

Em 2024, o governo australiano realizou um dos maiores testes governamentais envolvendo inteligência artificial generativa.

Mais de 7.600 servidores públicos distribuídos em mais de 60 órgãos participaram de um projeto piloto utilizando o Microsoft Copilot.

Os resultados foram expressivos.

Os participantes utilizaram a ferramenta para:

  • elaboração de documentos;

  • análise de dados;

  • produção de apresentações;

  • desenvolvimento de código;

  • organização de informações;

  • síntese de reuniões.

Diversos usuários relataram economia de até uma hora em tarefas administrativas específicas.

Mas o dado mais interessante veio depois.

Quase metade dos participantes declarou utilizar o tempo economizado para atividades de maior valor agregado, como:

  • planejamento estratégico;

  • capacitação profissional;

  • colaboração entre equipes;

  • desenvolvimento de competências;

  • relacionamento com partes interessadas.

A experiência demonstrou que a IA não reduziu a importância dos servidores. Ela ampliou sua capacidade de atuação.

O problema não foi tecnológico

Apesar dos resultados positivos, a pesquisa identificou obstáculos inesperados.

As principais barreiras encontradas não estavam relacionadas ao software.

Entre elas estavam:

  • receio de utilizar IA;

  • preocupações éticas;

  • falta de treinamento;

  • ausência de orientações claras;

  • estigma associado ao uso da tecnologia.

Em outras palavras, os desafios eram humanos e organizacionais.

Essa constatação reforça uma frase frequentemente citada por especialistas em transformação digital:

A adoção da IA no governo é mais uma questão de mudança organizacional do que de tecnologia.

Essa afirmação ajuda a explicar por que algumas organizações avançam rapidamente enquanto outras permanecem estagnadas, mesmo possuindo acesso às mesmas ferramentas.

O servidor público continuará sendo essencial

A popularização da IA trouxe consigo previsões sobre substituição de trabalhadores.

No setor público, entretanto, a realidade tende a ser diferente.

Embora a tecnologia seja extremamente eficiente para automatizar tarefas repetitivas, ela continua dependente da supervisão humana.

Questões envolvendo:

  • ética;

  • responsabilidade institucional;

  • interpretação normativa;

  • negociação;

  • liderança;

  • tomada de decisão;

  • relacionamento com cidadãos;

continuam exigindo capacidades humanas.

A inteligência artificial pode produzir respostas.

O servidor público continua responsável por interpretar contextos, avaliar consequências e tomar decisões que afetam a sociedade.

O futuro pertence aos governos que aprenderem primeiro

Existe uma frase utilizada por um especialista em IA de uma agência nacional de investimentos da Índia que resume bem o cenário atual:

Não utilizar IA pode ser comparado a entrar em uma disputa moderna utilizando ferramentas do passado.

A afirmação pode parecer exagerada, mas ilustra uma realidade crescente.

Enquanto governos ao redor do mundo avançam em estratégias nacionais de inteligência artificial, capacitação de servidores e modernização administrativa, instituições que permanecerem alheias a essa transformação podem enfrentar dificuldades para acompanhar a velocidade das mudanças.

A questão central já não é mais tecnológica.

A verdadeira pergunta é: as pessoas estão preparadas para trabalhar ao lado da inteligência artificial?

Os governos que conseguirem responder essa pergunta primeiro provavelmente estarão mais preparados para entregar serviços públicos mais eficientes, mais inteligentes e mais centrados nas necessidades dos cidadãos.


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