A falsa vitória da alfabetização no Brasil
TL;DR
O Brasil reduziu o analfabetismo formal, mas ainda compreende pouco.
Os dados do IBGE mostram um avanço importante: a taxa de analfabetismo caiu para 4,9%. Porém, o Inaf revela uma camada mais profunda do problema: grande parte da população ainda apresenta dificuldades para interpretar textos, compreender dados, resolver problemas e tomar decisões com autonomia.
A questão central não é apenas saber se alguém consegue ler e escrever um bilhete simples. O verdadeiro desafio é formar pessoas capazes de compreender contratos, gráficos, informações financeiras, conteúdos digitais e discursos públicos de forma crítica.
Em síntese: o Brasil avançou na alfabetização mínima, mas ainda falha em garantir alfabetização plena, funcional e crítica para a maioria da população.
O Brasil alfabetizou mais, mas ainda alfabetiza mal
A queda do analfabetismo no Brasil é uma conquista importante. Segundo a PNAD Contínua Educação 2025, divulgada pelo IBGE, o país alcançou uma taxa de analfabetismo de 4,9% entre pessoas de 15 anos ou mais. Foi a primeira vez, desde 2016, que esse indicador ficou abaixo de 5%.
O dado merece reconhecimento. Ele indica ampliação do acesso à escolarização básica e redução do número de pessoas que não conseguem ler e escrever um bilhete simples. No entanto, quando observado de forma isolada, esse resultado pode criar uma leitura excessivamente otimista da realidade educacional brasileira.
O problema é que a queda percentual não elimina a gravidade social do fenômeno. Mesmo com o avanço, o Brasil ainda possui 8,4 milhões de pessoas analfabetas. Isso significa que milhões de brasileiros continuam excluídos do nível mais básico de acesso à leitura e à escrita.
Mas a questão mais preocupante aparece quando se observa o que está além da alfabetização formal. O país reduziu o número de pessoas que não sabem ler e escrever minimamente, mas ainda enfrenta enormes dificuldades para formar sujeitos capazes de interpretar, comparar informações, argumentar, calcular e tomar decisões com autonomia.
O limite do dado do IBGE
O indicador do IBGE é necessário, mas possui um limite conceitual importante. A PNAD mede o analfabetismo em sentido estrito, isto é, a incapacidade de ler e escrever um bilhete simples.
Essa medida é fundamental para acompanhar a escolarização básica da população. Contudo, ela não permite avaliar se uma pessoa consegue compreender textos mais complexos, interpretar gráficos, analisar informações contraditórias, realizar inferências, compreender contratos, lidar com dados numéricos ou participar de forma autônoma da vida social e digital.
Em outras palavras, o IBGE mostra quem ainda está fora do mínimo. Mas não mostra, sozinho, se a população alcançou um nível suficiente de competência leitora, matemática e crítica.
Por isso, afirmar que o analfabetismo caiu para 4,9% é estatisticamente correto. O problema está em interpretar esse número como se ele significasse a superação do problema educacional brasileiro.
O Inaf revela uma camada mais profunda do problema
É nesse ponto que o Indicador de Alfabetismo Funcional, o Inaf, amplia a análise. Diferentemente do IBGE, que trabalha com a noção de alfabetização formal, o Inaf avalia o alfabetismo funcional.
Isso significa medir a capacidade de usar leitura, escrita, cálculo e interpretação em situações concretas da vida cotidiana. A diferença é decisiva.
Enquanto o IBGE aponta que 4,9% da população com 15 anos ou mais é analfabeta em sentido formal, o Inaf indica que 29% da população de 15 a 64 anos está em situação de analfabetismo funcional, considerando os níveis Analfabeto e Rudimentar.
Esse dado muda completamente a leitura do problema. Ele mostra que saber ler e escrever minimamente não significa, necessariamente, compreender informações, interpretar contextos, resolver problemas ou agir com autonomia diante das exigências sociais contemporâneas.
Apenas 10% da população atinge o nível Proficiente
O dado mais crítico do Inaf está no nível Proficiente. Apenas 10% da população brasileira avaliada alcança esse patamar.
Esse percentual é extremamente baixo quando se considera o que a proficiência representa. Estar no nível Proficiente significa ser capaz de interpretar textos mais complexos, compreender tabelas e gráficos com múltiplas variáveis, reconhecer tendências, avaliar informações, resolver problemas com várias etapas e produzir argumentos com maior consistência.
Em uma sociedade marcada por plataformas digitais, fake news, golpes virtuais, burocracias públicas, contratos, crédito, consumo financeiro e circulação massiva de dados, ter apenas 10% da população em nível Proficiente revela uma fragilidade estrutural da formação educacional brasileira.
O problema, portanto, não é apenas alfabetizar. É garantir que a alfabetização produza autonomia intelectual.
Entre decodificar palavras e compreender o mundo
A comparação entre IBGE e Inaf mostra que o Brasil avançou na alfabetização formal, mas ainda não conseguiu transformar esse avanço em alfabetização plena.
Decodificar letras e palavras é uma etapa fundamental. No entanto, a vida social contemporânea exige muito mais do que isso. Exige capacidade de interpretar documentos, compreender instruções, avaliar informações, identificar inconsistências, lidar com números, comparar alternativas e tomar decisões com base em evidências.
Essa é a diferença entre saber ler e conseguir usar a leitura como instrumento de participação social.
Quando apenas uma pequena parcela da população alcança níveis elevados de proficiência, o resultado é uma sociedade mais vulnerável à desinformação, à exclusão digital, ao endividamento, à manipulação política, aos golpes financeiros e à baixa participação cidadã.
A maioria ainda está presa a competências básicas
A distribuição dos níveis do Inaf reforça esse diagnóstico. Em 2024, 7% da população estava no nível Analfabeto, 22% no Rudimentar, 36% no Elementar, 25% no Intermediário e apenas 10% no Proficiente.
Isso significa que 65% da população brasileira está concentrada até o nível Elementar.
Esse dado é decisivo porque mostra que a maior parte da população não se encontra em patamares avançados de autonomia leitora, matemática e informacional. Mesmo entre aqueles classificados como funcionalmente alfabetizados, há uma grande parcela situada em competências ainda básicas.
O nível Elementar merece atenção especial. Embora seja classificado pelo Inaf dentro do grupo dos funcionalmente alfabetizados, ele ainda representa um domínio limitado. Pessoas nesse nível conseguem realizar algumas tarefas de leitura e cálculo, localizar informações em textos de extensão média e interpretar situações simples.
Contudo, tendem a apresentar dificuldades diante de textos abstratos, tabelas complexas, problemas com múltiplas etapas, argumentações sofisticadas e informações que exigem análise crítica.
Assim, classificar o nível Elementar como funcionalmente alfabetizado pode suavizar a gravidade do problema, pois esse grupo ainda apresenta limitações relevantes para o exercício pleno da cidadania.
O problema educacional brasileiro tem duas camadas
A comparação entre IBGE e Inaf evidencia duas camadas do problema educacional brasileiro.
A primeira é a do analfabetismo absoluto, ainda presente em 8,4 milhões de pessoas. Esse problema permanece fortemente concentrado entre idosos, no Nordeste e entre pretos ou pardos, revelando marcas históricas de exclusão regional, racial, geracional e socioeconômica.
A segunda camada é a do baixo alfabetismo funcional, que atinge uma parcela muito maior da população e não aparece de forma suficiente quando se observa apenas a taxa de analfabetismo formal.
O país reduziu o número de pessoas que não sabem ler e escrever, mas ainda não conseguiu garantir que a maioria leia, escreva, calcule e interprete com autonomia.
A escolarização aumentou, mas a aprendizagem ainda é insuficiente
Os dados do Inaf sugerem que o problema não está restrito aos grupos formalmente analfabetos. Há uma deficiência mais ampla na formação de competências cognitivas, interpretativas e informacionais.
Essa deficiência afeta inclusive pessoas que passaram pela escola e concluíram etapas formais de ensino. Isso revela um ponto central: escolarização não é sinônimo automático de aprendizagem efetiva.
O Brasil ampliou o acesso à escola e aumentou os anos de estudo da população. No entanto, ainda apresenta dificuldade em converter escolarização em domínio real da leitura, da escrita, do cálculo e da interpretação crítica.
O desafio educacional brasileiro não está apenas em colocar pessoas na escola, mas em garantir que a escola produza aprendizagem consistente.
O que esses dados exigem das políticas públicas
Essa distinção é fundamental para a formulação de políticas públicas.
Os dados do IBGE indicam a necessidade de políticas específicas de alfabetização de adultos e idosos, com foco regional e racial, especialmente no Nordeste e entre populações historicamente excluídas.
Já o Inaf aponta para outro eixo do problema: a necessidade de melhorar a qualidade da educação básica, fortalecer práticas de leitura, escrita, interpretação, matemática aplicada, cultura digital e pensamento crítico.
Uma política educacional baseada apenas na redução do analfabetismo formal pode parecer bem-sucedida nas estatísticas, mas continuará insuficiente se não enfrentar a baixa proficiência da população.
O país precisa alfabetizar quem ainda não teve acesso ao mínimo, mas também precisa elevar o nível de competência daqueles que já passaram pela escola e continuam com dificuldades para compreender o mundo por meio da linguagem, dos números e da informação.
IBGE e Inaf não se contradizem, eles se completam
IBGE e Inaf não devem ser lidos como indicadores concorrentes. Eles medem dimensões diferentes de um mesmo problema.
O IBGE mostra quem ainda está fora do patamar mínimo de alfabetização. O Inaf mostra que grande parte dos que ultrapassaram esse patamar mínimo ainda permanece em níveis frágeis de uso da linguagem e da informação.
Quando analisados em conjunto, os dois indicadores permitem uma conclusão mais rigorosa: o Brasil avançou no acesso básico à alfabetização, mas ainda fracassa em garantir alfabetização plena, funcional e crítica para a maioria da população.
Conclusão: o Brasil sabe ler mais, mas ainda compreende pouco
A taxa de 4,9% de analfabetismo registrada pelo IBGE representa um avanço importante. No entanto, ela não deve ser interpretada como sinal de superação do problema educacional brasileiro.
Quando esse dado é confrontado com o Inaf, especialmente com o fato de que apenas 10% da população alcança o nível Proficiente, percebe-se que a questão central não é apenas alfabetizar em sentido mínimo.
O verdadeiro desafio é elevar o nível de competência da população.
O Brasil tem menos pessoas completamente excluídas da leitura e da escrita, mas ainda possui uma maioria situada em níveis básicos ou intermediários. Essa maioria enfrenta limitações significativas para compreender criticamente a realidade, tomar decisões informadas e participar plenamente da vida social, econômica, política e digital.
Portanto, a boa notícia é que o analfabetismo formal caiu. A má notícia é que a alfabetização plena ainda continua sendo privilégio de poucos.